Reflectir sobre crise demográfica no século XXI conduz necessariamente àquele que é o fenómeno mais definidor do futuro dos países desenvolvidos: a estagnação prolongada das taxas de natalidade em níveis que não garantem a reposição populacional. Esta incapacidade de renovação geracional compromete, desde logo, a capacidade de cooperação entre gerações, a produtividade económica e a inovação, mas gera também efeitos sociais, emocionais e afectivos decorrentes da atomização social, da solidão, do fraco envolvimento cívico e do desinvestimento em compromissos familiares.
Esta tendência de estagnação demográfica desperta-nos para a necessidade de uma reflexão que ajude a compreender as circunstâncias materiais, os valores e os padrões de comportamento que podem estar na sua origem. Neste, como em tantos outros fenómenos, é possível aprofundar o conhecimento sobre o todo, a partir das margens, neste caso, a partir de uma espécie de reduto de resistência no meio de uma generalizada crise da natalidade. Esse reduto de resistência – ou realidade periférica da sociedade – é aquele que corresponde às famílias numerosas. Nesse sentido, propõe-se focar as vivências destas famílias, quanto às suas motivações, valores, gestão de recursos, hábitos de cooperação, coabitação e partilha e quanto à imagem que têm de si próprias face à sociedade em que se inserem.
Para além da possibilidade de distinguir factores favoráveis à natalidade, olhar para as vivências da família numerosa, interpretando-a como uma periferia, favorece uma compreensão mais plural dos modos de vida que desafiam normas dominantes e circunstâncias esmagadoras.