Envelhecimento, consumo mediático e recursos materiais: uma breve caracterização da audiência idosa da Covilhã

 

Abstract

 

Como se caracteriza o consumo mediático das pessoas com 65 anos ou mais residentes no concelho da Covilhã? Quais os desafios enfrentados por esta população para aceder às tecnologias de comunicação e informação (TIC’s)? Em busca de respostas, aplicamos um questionário exploratório em lares, centros de dia, domicílios e espaços públicos em 14 freguesias do concelho da Covilhã. Com um total de 355 respostas válidas, identificamos que 61,1% dos/as idosos/as têm rendimentos de até um salário mínimo nacional, 51,8% concluíram apenas as séries iniciais (até a quarta classe) e 15,5% não possuem nenhum nível de escolaridade, sendo muitas destas pessoas analfabetas ou semi-alfabetizadas.

O cruzamento entre esta breve descrição socioeconômica e os hábitos de consumo mediático revelaram como a ausência de recursos materiais e de formação educacional pode condicionar o acesso a diferentes TIC’s e o consumo mediático das pessoas envelhecidas. O questionário identificou, por exemplo, que os meios de comunicação mais referidos como de consumo habitual são os canais da televisão aberta. Sem a necessidade de aderir às assinaturas pagas, os canais abertos de televisão são, em muitos casos, a maneira como se informam, têm algum entretenimento e sensação de companhia no seu cotidiano, referiram durante a aplicação do questionário.

Enquanto 74,9% dos/as respondentes afirmaram que assistem televisão durante várias horas ao longo do dia, 55,8% afirmaram não aceder à internet porque não sabem utilizar e 13,8% não acedem porque não têm acesso ao serviço. Após as televisões, o meio mais referido foi o impresso Notícias da Covilhã, jornal regional de distribuição gratuita no concelho. Cabe ainda referir que apenas 8,8% das pessoas com menores rendimentos afirmaram ter e usar computadores.

A estes condicionamentos socioeconômicos somam-se outros, sobretudo, de ordem cultural. A ausência de literacia digital para as pessoas de mais idade (Rosales et al., 2023), os estereótipos e preconceitos de idade que condicionam o acesso às tecnologias da informação e comunicação (Ylänne, 2024), o fato de as tecnologias serem desenvolvidas tendo como “usuário ideal” pessoas jovens e, portanto, excluem à partida as pessoas de mais idade (Comunello et al., 2023) e os custos associados aos serviços de informação e comunicação são alguns dos fatores que trazem repercuções aos hábitos de consumo mediático da população envelhecida e para a sua cidadania, pois, retira destas pessoas a possibilidade de acederem a informações e serviços relevantes.

Nesta comunicação, propomos uma discussão destes e de outros dados obtidos por meio do inquérito realizado, relacionando-os com uma análise qualitativa de caráter etnográfico (Morley & Silvestone, 2002) da audiência pesquisada. Sem perder de vista a diversidade e a complexidade das vivências nas regiões marcadas pelo envelhecimento e despovoamento do país (Mello et al., 2023), discutiremos como as desigualdades estruturais entre territórios penalizam as pessoas de mais idade residentes nas zonas rurais do país (Lopes, 2015).

 


Biographic note

 

Elizângela de Carvalho Noronha é doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra e desenvolve sua investigação pós-doutoral no Programa de Desenvolvimento Humano Integral da Univerdade Católica Portuguesa. Seus interesses de investigação estão centrados nas ligações entre a comunicação e as questões interseccionais das audiências mediáticas com foco particular nas populações envelhecidas, na literacia digital e no combate ao idadismo.

 


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